28 de janeiro de 2013

E agora, José?





Juventude e compromisso com Deus parecem, para muitos de nós, coisas antagônicas. Temos um certo grau de dificuldade em posicionar estes dois fatos em um mesmo plano. É difícil entendermos que podemos perfeitamente ser jovens e, ao mesmo tempo, compromissados com Cristo. A grande dúvida paira neste aspecto: é possível amar a Deus e viver fiel a Ele ainda na juventude? Em Gênesis (cap.37 e 39) vemos, com o exemplo do jovem José, que podemos, ainda jovens, desfrutar de uma intimidade e de um relacionamento salvador e prático com Cristo em meio às tentações da vida comum.

Grosso modo, assim começa o drama de José. Seu pai, Jacó, o mandou ir atrás de seus irmãos para saber como eles estavam. E José foi. Andou quilômetros a pé, sozinho, em meio a morros e matas, animais selvagens. Ao chegar no destino, a fim de ver seus irmãos, em obediência, José foi surpreendido. Seus irmãos aproveitaram da situação e, como tinham inveja dele, venderam o caçula como escravo ao Egito. Nem mesmo com esta trágica façanha, José se fez inimigo de seus irmãos e nem tampouco deixou brotar amargura em seu coração contra qualquer um deles.

Será que José, um jovem, era um anjo ou alguém diferente fisicamente de nós? Veremos que não. Nota-se que José era um jovem como nós, sujeito às mesmas tentações e aos mesmos pecados.

Já no capítulo 39 José, como escravo, estava no palácio de Potifar, que era oficial do rei. E se nos dispusermos a uma pausa merecida agora para lermos o capítulo todo, veremos algo fantástico. Por várias vezes essa citação se repete: "E Deus era com José". Mas, como pode alguém tão jovem e após ter sido vendido como escravo por seus irmãos desfrutar de uma companhia tão íntima assim com Deus? Ainda tendo todas estas circunstâncias desfavoráveis, vemos que "Deus era com José". Porquê? O que José tinha de tão especial assim?

No relato do capítulo 39, vemos a posição importante de José, apesar da sua condição de escravo dentro do palácio. Além de o Senhor ser com ele, o que já bastava, Potifar ainda tudo confiava a esse moço, a ponto dele, Potifar, não comer nada sem que primeiro passasse pelo controle e aprovação de José. Noutras palavras; a saúde e, conseqüentemente, a vida desse oficial do Rei, estavam nas mãos do jovem José. Se ele quisesse envenená-lo, seria uma moleza. No entanto, não agiu desta maneira. Ao contrário, José teve um zelo muito grande para com seu senhor. José cuidava das coisas de seu senhor com diligência e sabedoria. Não se percebe em seu coração qualquer sinal de amargura contra seus irmãos, contra Potifar ou contra si mesmo, por se encontrar na condição de escravo. Isso é incrível! Afinal, José estava com sua liberdade e desejos limitados. José era apenas um jovem, porém, já era um escravo. No entanto, seu coração estava íntegro ao Senhor.

Devido à sua permanência diária no palácio, começaram a surgir alguns inconvenientes em sua vida. Inconvenientes estes, capazes de atrair a todos nós, como certamente deve ter causado um desconforto interior em José. Iniciou-se então a sedução diária e persistente da mulher de seu senhor, para que ele se deitasse com ela. Diariamente, segundo o cap. 39, José recebeu tal convite: "deita-te comigo". O pecado o chamava a todo instante e incansavelmente. Certamente, em determinados momentos, seu senhor estava longe, ausente; às vezes dormindo e seria fácil para o jovem atender os reclames da mulher. Bastava Potifar "bobear", que José poderia satisfazer os desejos da mulher e os seus carnais desejos também. Não nos esqueçamos que ele era um jovem como nós. Nossa mente, só de ler esta passagem, já monta as estratégias fatais para, caso fôssemos nós no lugar de José, consumar o convite sem que ninguém pudesse se aperceber. José estava num lugar propício para pecar. Era necessário tão somente dizer "sim" à mulher. Era questão de José entrar no quarto dela e. . . pronto. Que tentação! Que luta certamente passou José naquele momento. Mas ele não cedeu ao convite. Foi íntegro.

Após tantos convites em vão, a mulher não mais agüentou e quis pegá-lo à força. Assim diz o verso 11 que José certo dia foi resolver os negócios de seu senhor, e ninguém dos de casa se achavam presentes. Então ela, a mulher de Potifar, pegou-o pelas vestes para se deitar com ele. José, imediatamente fugiu. Fugir numa situação desta? Aqui está o centro do problema. Ou José foge ou então se rende. E agora, José? José, desta vez, não disse nada. Não abriu a sua boca e nem tentou explicar nada à mulher. E nem provar que era homem pra ninguém. Ele provou que era cristão, isto sim! Tão somente, fugiu. Para muitos de nós, o jovem foi até covarde, medroso e infantil ao fugir. Afinal de contas, correr pra quê? Mas José tinha sua mente em Deus. Sabendo da inclinação pecaminosa da sua carne, não quis dar a ela qualquer chance de sobrepor-se à sua santidade e pensou: "ou eu fujo, ou peco". Preferiu fugir. Diante dos homens, certamente um fracassado e um medroso; mas diante de Deus, um servo bom e fiel.

Aquele jovem, aparentemente inocente e vulnerável, não cedeu à sua vontade carnal. Preferiu fazer o que era reto perante Deus à satisfazer sua cobiça que, certamente, tinha sido aguçada pela atitude da mulher. Disse José à mulher de seu senhor, verso 9: "Ele não é maior do que eu nesta casa, e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porque és sua mulher: como, pois, cometeria tamanha maldade e pecaria contra Deus?". Para José, Deus estava em primeiro lugar. Não se preocupou com ele mesmo ou com os outros. Sua mente o alertava para Deus. Ele sabia que todo pecado ofende primeiro a santidade de Deus. O que de fato o preservou de pecar, não foi outra coisa senão sua intimidade com Deus. Certamente, José foi guardado de tal pecado, pois seu relacionamento com Deus não era algo virtual ou mesmo mental e sim, experimental. Deus era com José. Maravilhoso!

Porquê Deus era com José? Vejamos a resposta no livro do profeta Isaías, cap.57, verso 15: "Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos contritos." Será que a afirmativa "Deus era com José" não é porque José tinha um coração contrito e um espírito abatido? A resposta é um enfático sim! Coração contrito é um coração arrependido, que não procura se justificar, apenas reconhece seus pecados e confessa-os. Espírito abatido, não é andar com cara de coitado. É sim, aquela pessoa humilde, vazia de si mesma. É aquele homem ou aquela mulher que reconhece sua fragilidade e sua natureza pecaminosa e sabe que sem Deus ele(a) não vale nada.

Não podemos ficar somente olhando para José e imaginando-o como se ele fosse um "ET do reino"; alguém fisicamente diferente de nós. Ele era um jovem, sujeito às tentações, aos pecados e aos desejos de um jovem normal como eu e você. No entanto, ele decidiu servir a Deus de forma inigualável em sua juventude. Era uma pessoa que amava a Deus. Mas, acima de todas essas dificuldades e empecilhos que enfrentou, estava o seu compromisso com Deus e também o seu "amor de atitude" para com Ele. José, pela graça do Senhor, preferiu as coisas de Deus às da terra. Amava a Deus e provou isso quando recusou o convite para pecar, dizendo: "pecaria eu contra Deus?".

Portanto, não basta apenas nos intitularmos como cristãos e descansarmos nisto. É necessário um coração contrito, um espírito abatido, um coração que busque ao Senhor e que não abra mão da Sua palavra por nada, por convite algum deste mundo. Assim viveu José e assim podemos viver hoje também.

No caso de José, foi uma mulher que o tentou diuturnamente. Mas, em nossa vida, o que mais tem nos convidado a pecar? Qual pecado tem convidado você e eu para "deitarmos" com ele? A qual convite temos aceitado? Temos fugido ou temos pecado? Muitas vezes estamos a sós com a tentação, como José esteve. Porém, José tinha gravado em sua mente e em seu coração a palavra e a vida de Deus. E não foram outras coisas, senão estas, que o guardou de cometer tal pecado. Manteve-se íntegro e íntimo a Deus em meio às tentações. Não pensemos que intimidade com Deus é algo para experimentarmos somente na fase mais adulta ou mesmo na velhice. Não. Todos nós fomos chamados para viver como José, agora.

Portanto, é possível servir a Deus de forma fiel e de maneira correta ainda na juventude? A própria vida do jovem José responde que é perfeitamente possível.

Agora podemos entender a exortação do Apóstolo Paulo ao jovem Timóteo: "Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor." (IITm 2:22) Temos fugido das paixões da mocidade e dos pecados que tenazmente nos assediam, como exortou Paulo ao jovem Timóteo e como de fato fez o jovem José? Ou temos permanecido inertes e, às vezes, até desejando praticá-los?

Lembremos: José e Timóteo viveram a sua juventude de maneira digna do evangelho de Cristo. Será que nós não podemos viver hoje, assim também? A vida de Cristo arraigada em nós é suficiente para nos salvar e nos levar a viver em santidade ao Senhor (Hb. 12:14).