24 de agosto de 2012

Aliança - Testamento ou Pacto?


O sangue de animais não tinha o poder de efetuar a redenção; a imolação ritual não podia purificar a carne, isto é, realizar a purificação cerimonial (Hb 9.13).




A palavra "testamento" significa algo que é concedido independente da vontade e até do conhecimento do beneficiário . É uma espécie de contrato unilateral, onde o testador concede determinado bem ou benefício que exclusivamente lhe pertence, e que passa a pertencer ao beneficiário quando por ocasião da morte do testador. Desconsiderando os aspectos meramente jurídicos dos fatos; o contexto bíblico, certamente faz menção ao benefício maior concedido por Deus "mediante a morte de Cristo", a Salvação!

A palavra "testamento" foi adotada por alguns tradutores para a grande separação histórica da Bíblia, entre o Velho Testamento e o Novo Testamento. Porém não fornece boa base para o estudo das Alianças que Deus fez com o homem. O termo "testamento" é válido em se tratando de descrever a prioridade de Deus, pois foi pela morte de Jesus que alcançamos o benefício maior da salvação. Contudo, a inadequação está no fato de que um testamento não requer nenhuma condição por parte do beneficiário. O testamento simplesmente outorga direitos sem requerer nada em troca. Já o pacto, por sua vez, requer o cumprimento de certas condições para a sua validade. Essas condições são importantes por um critério de justiça, afinal não há pacto sem que haja concordância, manifesta pela expressão de vontade dos dois lados.

Que tipos de condições seriam essas? Para que possamos entender as condições do pacto feito entre Deus e o homem, precisamos primeiramente entender que tipo de pacto Deus celebrou com o homem; já que existem pelo menos três tipos de pactos a serem considerados.

1. Pacto por Cessão Real: Pacto entre duas partes onde o mais forte, soberanamente oferece ao mais fraco, um benefício que passa a ser direito do mais fraco. O mais forte "estabelece" e "cumpre" todas as exigências do pacto, cabendo ao mais fraco somente "tomar posse" do benefício que já lhe está assegurado.

2. Pacto de vassalagem: Estabelecido entre o mais forte e o mais fraco, onde o mais forte estabelece as bases do pacto que deve ser observado e cumprido pelo mais fraco. No pacto de vassalagem, o mais forte concede o direito de exploração e deliberação sobre o beneficio que é posto à disposição do mais fraco. Neste tipo de pacto o mais fraco somente irá gerir o benefício que continua sendo de propriedade do Mais forte. Este pacto pode ser desfeito a qualquer tempo pelo mais forte.

3. Pacto entre iguais: Estabelecido entre duas partes iguais, que contraem direitos e obrigações equivalentes. O direito de uma parte será a obrigação a ser cumprida pela outra, e vice-versa.

O pacto celebrado entre Deus e o homem, foi o Pacto por cessão real. Onde Deus, por exercício de sua Soberania, concedeu ao homem o direito à salvação, mediante o cumprimento de uma condição: "a morte"! Em Gênesis 2.17 , Deus estabelece um limite ao homem, que é "a árvore do conhecimento", e afirma que se o homem desobedecer "certamente morrerá"! O homem desobedeceu, e a Palavra se cumpriu. Em Romanos 6. 23(a), diz: "O salário do pecado é a morte...", e podemos ver ainda, descrito em Hebreus 9.22(b) que "...sem derramamento de sangue, não há remissão de pecados".

Considerando que o homem, na condição de pecador, segundo a Bíblia, além de ter herdado a morte física encontra-se também morto espiritualmente. Como poderia esse homem, expressar sua vontade de ser salvo e cumprir alguma condição para o Pacto com Deus? Certamente estamos diante de algo impossível para um morto! Contudo, conforme o texto de Efésios 2.1 nos revela: "Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados". E de que forma Ele nos deu vida? Através da morte expiatória do Senhor Jesus em nosso lugar, conforme Ele mesmo atesta no livro de Lucas 22.20(b) "Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós".

Por conseguinte, podemos ver claramente que Deus determinou a condenação para o pecador, e também proveu meio para a redenção dos seus escolhidos. O Pacto da Aliança pela Graça, estabelecida e cumprida por Deus através do Sangue de Jesus, que nos condiciona a uma nova Aliança com Deus. Não mais pelas obras, mas sim pela fé. Sendo até mesmo a fé, objeto da Graça Soberana de Deus, posto que, se temos fé, foi Deus quem também nos concedeu! Conforme Efésios 2.8 "...Pela Graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus".

Pacto por Obras e pacto da graça


Os sacrifícios dos levitas apenas cobriam o pecado; o sacrifício de Cristo
removeu o pecado.


Temos basicamente duas Alianças estabelecidas por Deus. Uma por Obras e outra pela Graça. Para que possamos compreender melhor a questão; podemos dividir a Bíblia analiticamente em dois grandes blocos diferentes da divisão testamentária. Conforme o quadro abaixo:

Pacto de Obras Gênesis 1.1 até 3.14 Pacto da Graça Gênesis 3.15 até o final do Apocalipse

Segundo esse entendimento podemos observar que, a Graça de Deus já se fazia presente na Grande Promessa feita pelo Senhor, de Enviar o Salvador (Gênesis 3.15) . O "descendente da mulher", a saber, Jesus Cristo! Adão foi estabelecido sem estar sujeito ao poder do pecado. Tinha o pleno controle de tudo e estava constituído na posição de "salvo" debaixo da proteção de Deus. Cabia a Adão somente manter-se obediente para guardar a sua integridade com Deus. Ele não tinha do que se arrepender nem motivos para pecar. Adão "só precisava obedecer os estatutos de Deus", razão pela qual essa Aliança é chamada de "Aliança por Obras".

No entanto Adão caiu em pecado. E com o pecado veio a inevitável condenação à morte. Não só a morte física pela qual todos passamos, mas também a "morte espiritual". A partir daí, toda a raça humana estava condenada à "Morte Eterna" proveniente do pecado original. A exigência da morte em decorrência do pecado se baseava nos Estatutos de Deus definidos como vimos em Gênesis 2.17, através da afirmação: "...certamente morrerás" Essa então é a condição necessária para que o homem seja redimido de sua natureza pecaminosa.

O próprio Deus, na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Cumpriu a condição necessária para que o pecado não mais fizesse separação entre o homem e Deus. Isso deixa definitivamente claro que Deus estabeleceu O Pacto; e Ele mesmo o cumpriu. Deus já havia firmado também com Abraão, o Pacto da Graça. Ainda que se utilizando de uma forma rudimentar de Aliança; como vemos em Gênesis 15. 8 a 18. Neste tipo de Aliança as partes que pactuavam tinham que passar pelo meio das metades de animais, simbolizando que pagariam com a morte pelo não cumprimento do Pacto. E foi Deus que passou entre as metades estabelecendo nEle o cumprimento da Aliança. A partir de Gênesis 3.15 passamos a viver um novo e definitivo Pacto, ainda que, na ocasião fosse só uma Promessa. Deus estabeleceu, vez por todas, o Pacto da Sua Graça e Misericórdia, confirmada no Sangue de Cristo!

Lei ou Graça?

Nunca houve uma Aliança exclusivamente da Lei e uma outra Aliança exclusivamente da Graça. Em toda a Aliança com Deus, se faz presente tanto a Graça quanto a Lei. A Graça é manifestada pela oferta de restauração que Deus sempre manteve para o homem. A Lei se apresenta na forma das exigências e condições concernentes ao Pacto. Então por quê das ordenanças legalistas estabelecidas sobre o povo judeu?

Devemos considerar alguns aspectos referentes ao povo hebreu. Estamos diante de um povo completamente destituído de cultura, que não tinha sequer parâmetros de civilização, e que precisava de normas que garantissem a regência das questões internas. Um povo que certamente sequer teria condições de compreender, a amplitude do que Deus estava lhes reservando, por não estar preparado ainda para compreender o mecanismo da fé espiritual.

A esses, Deus estabeleceu normas de convívio social e ordenanças sacrificiais. Podemos citar por exemplo:

1. Números 35. 1 a 8 - Estabeleceu cidades e recursos para que os Levitas estivessem exclusivamente dedicados ao sacerdócio.

2. Números 35. 9 a 34 - Estabeleceu as "Cidades de Refúgio", e os parâmetros para um julgamento justo e ordenado. (Classificação de homicídios).

3. Êxodo 21. 12 a 25 e Deuteronômio 19.21 (confirmação) - Estabeleceu limites para preservar a integridade física mediante critérios de moderação. (Lesão Corporal).

4. Levítico 1. 1 a 5 - Estabeleceu ordenanças sacrificiais que fizessem com que, o povo se lembrasse continuamente dos livramentos de Deus, incentivando-os a uma vida devocional que identificasse o ofertante com a oferta, para que se aproximassem de Deus.

Consideremos todos os exemplos fornecidos acima e situemo-nos diante dos propósitos de Deus. Certamente não seria correto presumir que Deus estabeleceu regras para o julgamento dos homicidas, porque "quisesse que existissem homicidas". Nem tampouco Deus desejou que alguém ferisse gravemente o semelhante em clara atitude de vingança. Muito menos desejou Deus, ser lembrado por sangue animal derramado ou ainda gordura queimada. (Isaías 1.11) Essas coisas eram somente sombras da Grande Obra a ser realizada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Deus celebrou o Grande Pacto com o homem, pelo qual, mediante a sua Graça e Poder, constituiu o Reino Eterno da Aliança no Sangue de Jesus! O Grande desejo de Deus sempre foi resgatar o homem da condenação do pecado.