19 de dezembro de 2011

O Natal de Simeão


O Natal de Simeão

Lucas 2.25-35

I) Introdução: A importância desta história para a celebração do Natal

Lucas escreve seu Evangelho, lançando mão de personagens desconhecidos nos outros evangelhos. É verdade que isso ocorre em Mateus e João, mas não com a freqüência de Lucas. Por que isso ocorreu? Seria, dizem alguns, por este evangelho destinar-se a um universo mais amplo, e assim incluir-se um número maior de pessoas? Muitas respostas podem ser tentadas, mas a verdade é que essas pessoas cumprem um papel pedagógico importante. Principalmente nos capítulos 1 e 2 de Lucas, o conhecido Evangelho da Infância, ou Evangelho da Encarnação. Nele, além de Simeão, nosso personagem, temos Zacarias, Isabel, os pastores, Ana, a profetiza, e os doutores em Jerusalém.

Simeão, como figura popular, representou, sem dúvida, um rosto muito próximo da comunidade onde Lucas convivia e veio a escrever o Evangelho. E uma liderança espiritual cujo testemunho já percorreram cerca de 2000 anos, com a qual, hoje, nossas lideranças muito têm a aprender. Por isso, queremos circular histórica e textualmente entre o que ocorreu em Jerusalém, no Templo, quando se cumprira o tempo da purificação de Maria, trazendo ela o seu humilde sacrifício: uma pomba. A interferência de Simeão, e sua profecia, o significado disso para a comunidade de Lucas, por volta dos anos 80, e as nossas igrejas cristãs, neste Natal de 2002.

Qual a relevância de Simeão e seu ato para esses três momentos históricos?


II) A situação histórica: O que estava acontecendo?

Israel vivia desde 63 a.C., quando da conquista da Palestina pelo general romano Pompeo, sob o jugo romano. Para os religiosos e piedosos de Israel, tratava-se de um exílio em sua própria terra, pois eram servos (escravos do dominador estrangeiro, no caso, os romanos).

A família de Herodes, assim como a classe dominante do Sinédrio, haviam feito acordos com o dominador estrangeiro, de modo a não perderem seus privilégios. Tais acordos foram, por diversas vezes, ameaçados, por diversos movimentos revoltosos que culminaram com a nomeação de um interventor (procurador) para o território de Judá.

Nesse quadro é que se deve entender as expressões paraklesin tou Israel: consolação de Israel, no verso 25 desse texto, ou ainda a contida no verso 38, onde se diz que a profetiza Ana falava da lutrôsin Jerusalém, que, em português, é traduzido por redenção de Jerusalém, mas poderia ser por libertação de Jerusalém. Isso significaria que a expectativa do povo era por uma salvação historicamente encarnada, ou seja, do mesmo modo que o Filho se fez carne, a sua redenção é para ser vista, sentida e vivida na história. Desse modo, Simeão, Ana e tantos outros eram intérpretes dos anseios de um povo que entendia que a redenção vem de Deus, mas acontece entre nós, com a nossa participação, e pode ser sentida na vida e na história.

Essa experiência de Deus presente, encarnado, na fé de um povo, e que move a história e seus acontecimentos na direção da vontade de Deus, é a que nós conhecemos em João Wesley e em tantos outros reformadores.


III) Quem era Simeão? E o que podemos aprender com ele?

Simeão, como o texto nos permite deduzir, vivia em Jerusalém, e sua história tornou-se conhecida e relevante para o Cristianismo primitivo. Tanto que a tradição sobre ele chegou até Lucas e sua comunidade.

O texto nos diz cinco coisas importantes sobre Simeão: a) era um homem justo; b) era piedoso; c) esperava a consolação: redenção de Israel; d) o Espírito Santo estava sobre ele; e) o Espírito Santo revelara-lhe que não morreria sem ver o Messias do Senhor.

Sobre essas características precisamos nos deter, pois elas são a razão pela qual Simeão tornou-se um exemplo e testemunho vivo, que o Evangelho preservou, para edificação da igreja de Lucas, e para nós hoje.


a) O homem justo e a mulher justa

Como no texto estamos em Jerusalém do Antigo Testamento, o melhor exemplo para definir um homem ou mulher justo-justa é o Salmo 1, que, por si só, nos daria um sermão; mas só quero destacar alguns elementos:

Bem-aventurado o homem ou mulher que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Há um ditado popular que diz: "Dize-me com quem andas e eu te direi quem és". Essa expressão é verdadeira, quando estamos tratando de pessoas cujas convicções de fé e personalidade não estão ainda definitivamente amadurecidas. Jesus andou entre os ímpios e pecadores, mas eles não o mudaram; eles é que foram mudados por Ele; vejam Zaqueu, vejam Maria Madalena. Nós vivemos numa sociedade, onde, via televisão, revistas, música, etc., os ímpios entram em nossas casas e dão conselhos a muitos de nós, e, mais ainda, aos filhos e netos. Nós somos demasiadamente liberais e otimistas quanto à capacidade que temos de neutralizar as más influências. Mas a realidade que temos visto em muitas famílias é exatamente o contrário. A solução não é simplesmente desligar a televisão ou proibir. Nós também já aprendemos essa lição. A repreensão provoca uma explosão de desejo de liberdade mais cedo ou mais tarde, quase sempre mal dirigido, quando não gera pessoas inseguras e doentias.

A solução é dada no próprio Salmo: o texto diz que o homem e a mulher justa é a que tem o seu prazer na lei do Senhor e nela medita de dia e de noite. Quantos de nós temos atividades que nos dão prazer. E muitas delas foram passadas por nossos pais ou outros familiares próximos. Seja um esporte ou outro lazer qualquer, ou mesmo interesse por uma atividade que veio a tornar-se a nossa profissão, como pintura, música e tantas outras. Eu tenho um prazer muito grande pela leitura. e isso começou no Sul do Brasil, onde temos invernos longos, frios e chuvosos. Meu pai lia muito e tinha o costume de nos presentear com livros. Minha mãe era uma mulher de oração, dezena de vezes eu acordava à noite e ouvia seu gemido em oração de joelhos. Ambos os exemplos desenvolveram relevância, gosto, prazer mesmo, pela leitura e pela oração.

O texto diz que o homem e a mulher justo/ justa tem seu prazer na lei do Senhor. Quantos de nós temos esse prazer? Quantos de nós passamos isso aos nossos filhos? A Bíblia diz que esses são bem-aventurados, são bem sucedidos. O restabelecimento da autoridade das Escrituras é o caminho que tem que ser refeito na Reforma de que precisamos hoje na Igreja.

Já o justo no Novo Testamento é tudo o que diz o Salmo 1, e mais: foi também remido e lavado no sangue do Cordeiro Jesus. Sim, nós cremos que o perdão e a nova vida em Cristo Jesus é para ser vivida em justiça, na fé no justo que é Jesus.


b) Simeão era piedoso

Aqui não preciso me deter muito, porque é uma decorrência de ser justo, o ser piedoso.

O piedoso, em Israel, era aquele que tinha o temor de Deus. Não como uma neurose, paranóica, mas como uma atitude de reverência e adoração. Sim, alguém que, como Simeão, buscava a Deus pela manhã, buscava a Palavra de Deus e se empenhava em não pecar contra Deus, enfim cultivava o que nós metodistas aprendemos de João Wesley: a Santidade.

Nós, hoje, quando falamos de reverência a Deus, pensamos em celebração em culto dominical. No caso de Simeão, tratava-se de uma forma de viver, algo como diz o Apóstolo Paulo:"Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro , tudo o que é respeitável,... se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento."(Fp 4.8).


c) Simeão esperava a consolação de Israel.

Esta expressão apontava para a fé que Simeão e o povo de Israel tinham, de que Deus haveria de restaurar a Israel, consolando e redimindo, conforme as diversas profecias de Isaías (40.1-2;42.6-7) e de outros profetas.

Sim, esperavam o ungido ( messias) de Deus, aquele que traria o dia do Senhor, o juízo de Deus sobre os ímpios, livramento e redenção para os que amam e buscam o Senhor.

A consolação ansiada por Simeão e por Israel era uma única esperança: o Messias Jesus. Tratava-se de uma fé, na qual Simeão e o povo simples de Israel se alimentavam e consolavam. A classe dominante já tinha em suas riquezas suas consolações, mas gente como Simeão esperava a Consolação de Deus.

Nós sabemos que a verdadeira consolação só Deus pode nos dar.


d) O Espírito Santo estava sobre Simeão

Esta declaração me faz lembrar de uma das páginas mais trágicas do Antigo Testamento. Trata-se do texto que fala de Sansão depois de desobedecer a Deus, sendo traído por Dalila, quebrou a aliança de Nazireado que tinha com o Senhor. O texto é claro: "E disse ela: Os filisteus vêm sobre ti, Sansão! Tendo ele despertado do seu sono, disse consigo mesmo: Sairei ainda esta vez como dantes e me livrarei; porque ele não sabia ainda que já o Senhor se tinha retirado dele."(Jz 16.20). Sansão não havia se dado conta de que o Espírito do Senhor se retirara dele, e com isso toda a sua força.

Sim, a força de Simeão era a sua intimidade com o Senhor, a qual lhe dera a dispensação do Espírito Santo sobre ele. Simeão viveu o Pentecostes em sua plenitude. Essa unção do Espírito é a que estava depois sobre João Batista, sobre Jesus, o Messias, a ponto de Ele afirmar conforme profecia: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor." (Lc 4. 18-19).

A presença do Espírito Santo traz algumas conseqüências imediatas:

1 - Deus é poder, dele vem a nossa salvação, uma santa e absoluta convicção do poder e soberania de Deus. Todos os apóstolos foram revestidos dessa fé e convicção. Simeão cria no Messias.

2 - Uma clareza e discernimento dos planos e propósitos de Deus, assim como das suas manifestações. Isso fez com que Simeão pudesse perceber naquele carpinteiro José, o pai do Messias, naquela mulher pobre que só podia oferecer uma pombinha em sacrifício por sua purificação, a mãe do Messias, e, naquela criança que eles carregavam e apresentavam no Templo, o Salvador do mundo, o Messias, o Consolador de Israel. Essa sensibilidade, esse discernimento, não foi exercido pelos diversos escribas presentes em Jerusalém e no Templo, tampouco pelos levitas e sacerdotes, mas, sim, por um homem simples, que tinha uma diferença: o Espírito do Senhor estava sobre ele.

3 - O Espírito Santo nos impulsiona para Deus, nos dá convicção do pecado e anseio de santidade. Além de nos conceder dons extrordinários, como Simeão recebeu o de revelação, e Ana o de profecia.


e) Revelara-lhe o Espírito Santo que não passaria pela morte sem ver o Messias de Deus.

Simeão aprendeu a conhecer as promessas de Deus, e a crer nelas como algo para a sua vida. Até Deus lhe revelar que veria o Messias, quantas e quantas vezes esse homem idoso orara, pedindo a Deus essa bênção? Conhecer as promessas de Deus, crer nelas, e apropriar-nos pela fé de sua mensagem é um processo histórico, onde nós tornamos a Palavra de Deus carne, algo real e concreto para os nossos dias. O mundo em que vivemos está precisando ver e sentir as promessas se concretizando. As novas gerações estão cansadas de belas palavras, de uma piedade cristã sem evidências do poder e cumprimento das promessas de um Deus vivo, que ouve as orações e realiza suas promessas.


III) Conclusão:

O texto termina com um cântico de alegria de Simeão pela salvação já vista por ele. Assim como cumprimento das profecias. Não preciso discorrer sobre elas; o importante é como chegou Simeão a essa alegria e ao exercício da profecia. Sua caminhada de fé, sua maneira de ser nos darão o caminho de um crente que crê nas promessas e toca nas mesmas, deixemos de assistir os outros tocarem nas promessas de Deus. Toquemos pela confiança na Palavra, e a perseverança na oração. Firmes nas promessas de vida abundamente e vitoriosa que o Evangelho nos dá.

Natal é tempo de Alegria de Deus. Precisamos dar um conteúdo bíblico ao nosso Natal, apontando, acima de tudo, que a Salvação veio a este mundo e o seu nome é Jesus. Nele está a Promessa e o Cumprimento dela. Sim! Deus veio em nosso socorro, e isso é motivo de Alegria. Anunciemos isso, como Simeão. Contagiemos nosso ambiente com a graça, a fé e a esperança que Jesus nos dá.


Questões para reflexão:

1) Que lição aprendemos com o Evangelista Lucas no resgate que ele faz de personagens do povo, como Simeão e Ana?

2) O que diferencia Simeão dos crentes comuns?