11 de novembro de 2011

O dízimo

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas.” Mateus 23.23
Não há dúvidas de que o Senhor Jesus, nesse texto, está repreendendo os fariseus por omitirem o que havia de mais importante na Lei de Moisés: a justiça, a misericórdia e a fé. Realmente, os fariseus, que eram considerados os judeus religiosamente mais radicais da época de Cristo, levavam os aspectos formais e ritualísticos da religião tão a sério, ao ponto de esquecerem das pessoas propriamente ditas. Assim, perdidos na burocracia e na legalidade religiosa, não atentavam para o que o Senhor Jesus considerava o mais importante. Entendiam a justiça, por exemplo, da mesma maneira que os gentios, ou seja, juridicamente, e não teologicamente. Desconheciam que a justiça de Deus consiste em fazer cumprir a Sua Palavra. Tal entendimento anulava a misericórdia divina. Cegos na ânsia de cumprir a Lei, esqueciam que Deus é amor e misericórdia e que esses dois componentes do Seu caráter estão incluídos na Sua justiça. A fé pouco lhes importava, uma vez que estavam preocupados com a religião. Trocavam a comunhão filial com Deus pelo restrito cumprimento dos mandamentos à luz de um entendimento frio e formal. Pensavam que serviam a Deus, quando na realidade se esforçavam para manter um sistema do qual o próprio Deus há muito estava distante. Jesus tentou, durante todo o Seu ministério, abrir seus olhos para o erro em que estavam incorrendo. Acabou acusado por eles e condenado à morte de cruz.
Nessa repreensão aos fariseus, o Senhor Jesus deixa muito claro um assunto que tem sido alvo de polêmica para muitos evangélicos, principalmente aqueles que não estão com o coração totalmente colocado na obra de Deus: a questão do dízimo. Temos ouvido vez por outra pessoas afirmarem que a prática de dar o dízimo é coisa do Antigo Testamento e que agora, sob a Dispensação da Graça, ninguém é mais obrigado a fazer coisa alguma. Há até quem diga que Jesus nunca mandou ou recomendou a prática do dízimo. Enganam-se redondamente os que assim pensam. Nesta passagem, por exemplo, o Senhor Jesus diz que os fariseus deveriam praticar a justiça, a misericórdia e a fé, e cita o dízimo como algo comum entre o povo afirmando que sua prática não devia ser omitida. Em outras palavras, uma coisa não anula a outra. O fato de contribuir com a Igreja não isenta as pessoas de praticarem a fé, bem como ser piedoso e consagrado não justifica alguém que não é dizimista. Na verdade, o dízimo é um sacrifício que se coloca no altar. Embora muitos cristãos o considerem uma obrigação ou a simples devolução daquilo que pertence a Deus, na prática não é tão fácil ser dizimista; os pobres têm a idéia de que qualquer quantia faz falta, e os ricos consideram muito dinheiro a décima parte dos seus rendimentos. No livro de Malaquias, capítulo 3, versículo 10, encontramos o texto áureo do dízimo: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós tal bênção, que dela vos advenha a maior abastança.”. O desafio que Deus faz ao Seu povo no sentido de provar a Ele por intermédio do dízimo demonstra claramente o sentido de sacrifíco desse tipo de oferta. O povo entrega a Deus parte da sua renda mas tem a promessa de que as janelas do céu serão abertas e as bênçãos da prosperidade cairão abundantemente sobre ele. É uma troca que se faz com Deus por proposta d’Ele mesmo. Aliás, todo sacrifício supõe uma troca; ora se sacrificava para obter uma bênção, ora por gratidão por tê-la recebido. Conta-se que certa vez alguém questionou um pastor da seguinte maneira: “Então, segundo suas palavras sobre o dízimo, o senhor está propondo um negócio com Deus? Ao que o pastor respondeu: “E você conhece alguém melhor do que Deus com quem negociar? Infelizmente, muitos cristãos se tornaram tão frios e cumpridores de normas que não conversam com Deus naturalmente. Suas orações são chavões decorados, peças de retórica ou palavras e gritos vazios que se perdem no espaço. Se você, leitor quer ter uma idéia do que isso significa, faça uma experiência e imagine um diálogo com alguém que fale com você da mesma forma que ora a Deus... Conversar com Deus é dialogar, falar, expressar sentimentos, pedir, cobrar, propor, reclamar, agradecer, ouvir, enfim, usar naturalmente a linguagem humana, de filho para Pai. Nessa relação, o sacrifício cabe como a parte que cabe ao ser humano para que Deus possa realizar Sua obra neste mundo.